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O Estado já saiu do campo --- e o Agro mal percebeu (Hulq, F99)
09/07/2026 - Por marco lorenzzo cunali ripoliAtenção: Os textos e artigos reproduzidos nesta seção são de responsabilidade dos autores. O conteúdo publicado não reflete, necessariamente, a opinião da ADEALQ.
O crédito privado superou o Plano Safra. O barter bate recordes. A tokenização saiu do laboratório. A revolução financeira do agronegócio brasileiro está em curso — silenciosa, acelerada e, para muitos produtores, ainda invisível.
Marco Rípoli é PhD em Máquinas Agrícolas, diretor da Bioenergy Consultoria e consultor-associado da PH Advisory Group.
Há uma narrativa confortável e perigosa que ainda circula nas mesas das cooperativas, nos corredores das feiras agropecuárias e até nas redações especializadas: a de que o agronegócio brasileiro depende, fundamentalmente, do Estado para se financiar. Que sem Plano Safra, sem subsídio, sem BNDES, a engrenagem trava. Essa narrativa é um convite ao imobilismo — e os números de 2025 e 2026 a desmontam com elegância.
A VIRADA HISTÓRICA: QUANDO O PRIVADO ENGOLIU O PLANO SAFRA
Entre as décadas de 1960 e 1990, o financiamento rural brasileiro era quase integralmente estatal. O produtor ia ao banco oficial, recebia o dinheiro subsidiado e plantava. Essa estrutura foi se desmontando nas crises fiscais seguintes — e o campo crescia em escala e complexidade muito mais rápido do que a oferta pública conseguia acompanhar.
O resultado desse descompasso é visível hoje: o Plano Safra 2025/2026 foi lançado com R$ 516,2 bilhões — o maior valor nominal da história. Ao mesmo tempo, o estoque total dos principais instrumentos privados de financiamento — CPRs, LCAs, CRAs, CDCAs e Fiagros — fechou 2025 em R$ 1,41 trilhão. O mercado privado representa mais que o dobro do que o governo anuncia. O Plano Safra responde por aproximadamente 20% do crédito que movimenta o campo. Os outros 80% vêm de outra fonte.
O problema não é só de volume — é de custo. A Selic a 15% ao ano no lançamento do Plano Safra 2025/2026 gerou as maiores taxas de juros já vistas no crédito rural controlado. Para o Pronamp, os juros saltaram de 8% para 10%. Para o Moderfrota, de 8,5% para 13,5%. Para grandes produtores, o custeio chegou a 14% ao ano. A política de equalização — em que o Tesouro subsidia a diferença entre o custo de captação do banco e a taxa cobrada ao produtor — ficou muito mais cara com a Selic elevada, limitando o crédito realmente controlado. Em outras palavras: o Plano Safra cresceu em valor nominal, mas encolheu em impacto real.
Um detalhe técnico que raramente entra no debate: dos R$ 516,2 bilhões anunciados, R$ 185 bilhões referem-se a CPRs que servem como lastro e instrumento — não como recursos diretos do Tesouro. Parte do que é contabilizado como "crédito público" já é, na prática, crédito
privado reestruturado. A linha entre o público e o privado é muito mais tênue do que o discurso
político admite.
A ARQUITETURA DO TRILHÃO: CPR, LCA, CRA E O NOVO MERCADO
O crédito privado do agro não é um monolito. É uma arquitetura de instrumentos distintos — e conhecê-los deixou de ser opcional para quem opera no setor.
A CPR — Cédula de Produto Rural, criada em 1994 e modernizada em 2022, é o ativo-âncora desse sistema. Em 2025, seu estoque atingiu R$ 562,9 bilhões — alta de 72% em relação a 2024 —, com 398 mil certificados em circulação e ticket médio de R$ 1,4 milhão. O produtor aprendeu a usar sua produção futura como ativo financeiro. Esse é o fundamento de quase toda a estrutura privada que se construiu ao redor.
A LCA — Letra de Crédito do Agronegócio é o maior estoque individual do mercado, com R$ 600,15 bilhões ao final de 2025, crescimento de 16% em um ano. Dos recursos captados, R$ 360,09 bilhões foram reaplicados diretamente no financiamento rural — 39% a mais que no ano anterior. É o instrumento que conecta o investidor urbano ao campo, isento de IR para pessoa física. A ameaça da MP 1303/2025, que aventou a taxação das LCAs, foi recebida com alarme pelo setor — e com razão: qualquer tributação desse instrumento encarece o crédito rural.
Os CRAs — Certificados de Recebíveis do Agronegócio fecharam 2025 em R$ 178,39 bilhões, com emissões de R$ 52,1 bilhões no ano — recuperação importante após a crise de 2024, gerada pelas recuperações judiciais da Agrogalaxy e de outros players. Os Fiagros encerraram o ano com patrimônio líquido de R$ 47,42 bilhões e 256 fundos em operação. O
mercado secundário desses instrumentos amadurece: como destacou o vice-presidente da B3, Luiz Masagão, "quando o investidor sabe que pode vender um título no mercado secundário, ele se sente mais confortável para investir no longo prazo" — ciclo virtuoso de liquidez que o agro precisa para atrair capital internacional em escala.
O principal gargalo agora não é volume — é qualidade. A enorme variação de padrão entre operações, em termos de risco, transparência e obrigações de cada parte, dificulta ganhar escala e atrair investidores institucionais com exigências mais rígidas de compliance. Crescer com consistência exige padronização — e esse é o trabalho mais urgente do próximo ciclo.
BARTER: A TROCA QUE VIROU ESTRATÉGIA DE SOBREVIVÊNCIA
Se a CPR é o título mais versátil do agro, o barter é a operação mais pragmática. Três décadas depois de sua popularização nas lavouras de soja do Centro-Oeste, ressurge como protagonista em um cenário de crédito caro e oferta bancária restrita.
O conceito é simples: o produtor troca produção futura por insumos presentes — sementes, fertilizantes, defensivos — sem dinheiro na mesa e sem taxa de juros explícita no contrato. A formalização se dá via CPR, que garante segurança jurídica às três partes envolvidas: produtor, fornecedor de insumos e trading. Mas o barter evoluiu muito além dessa estrutura triangular.
No barter securitizado, a trading emite um CDCA lastreado em CPR e o negocia no mercado de capitais — atraindo investidores institucionais para dentro de uma operação que começou como troca de soja por herbicida. O que parece uma transação rural simples termina como produto de renda fixa negociado em bolsa.
Os números confirmam o protagonismo. A BASF projetou até 50% de seus negócios na safra 2024/2025 via operações de troca. A consultoria Céleres prevê recorde nas operações de barter para a safra 2026/2027, com o mercado de insumos voltando a R$ 309 bilhões. O Banco do Brasil, pela plataforma Broto, foi além: lançou barter digital com grãos tokenizados em soja, milho e café — 10 empresas já contratadas, 30 em negociação.
Por que o barter ganhou tanta força agora? Porque com o custo total do financiamento convencional podendo superar 20% ao ano em 2026, travar simultaneamente o preço dos insumos e da commodity elimina duas variáveis de risco de um único golpe. É gestão financeira embutida em uma operação comercial. A ressalva é importante: o barter não é
gratuito. Seu custo está na diferença entre o preço do insumo à vista e o valor em sacas que o produtor aceita travar — e quem não faz essa conta pode estar pagando mais do que imagina.
TOKENIZAÇÃO: O CAMPO DIGITAL QUE JÁ PRODUZ RESULTADOS
Tokenização ainda provoca ceticismo em boa parte do setor. Parece assunto de tecnólogo, não de agrônomo. Esse ceticismo é compreensível — e arriscado. Tokenizar é transformar qualquer ativo físico ou financeiro em uma representação digital registrada em blockchain. No agro, significa converter sacas de soja, cabeças de gado, CPRs
ou recebíveis de exportação em tokens que podem ser negociados, fracionados, usados como garantia ou transferidos instantaneamente — com segurança criptográfica e auditabilidade em tempo real. O ativo mais tokenizado no Brasil é, precisamente, a CPR. O total de ativos digitais emitidos por tokenização atingiu R$ 4 bilhões em 2025, segundo a plataforma RWA Monitor.
As aplicações práticas vão além das finanças. A startup Simple Token, em parceria com a agtech Cowmed, tokenizou bovinos — transformando vacas em ativos digitais com dados de saúde, rastreabilidade e histórico produtivo usados como garantia de crédito. A meta é viabilizar R$ 200 milhões em créditos a pequenos e médios produtores até 2026. A lógica é
direta: mais informação verificável sobre o ativo significa menor risco percebido pelo credor — e menores juros para o produtor. A tokenização é, em essência, uma máquina de redução de assimetria de informação.
A infraestrutura institucional avança em todas as frentes. O Banco Central testou no Piloto Drex (Fase 2) a tokenização da CPR integrada a dados de sustentabilidade e risco climático, apresentado ao Ministério da Agricultura em agosto de 2025. A B3 anunciou sua própria tokenizadora para 2026. A CVM colocou a tokenização como prioridade regulatória. O mercado global de blockchain no agronegócio deve crescer de US$ 133 milhões em 2023 para US$ 948 milhões até 2028 — crescimento anual de 47,8%, segundo a MarketsandMarkets. O Brasil, com CPR robusta e agro que representa 27% do PIB, está posicionado de forma única para liderar esse mercado. A questão é se vai liderar — ou apenas assistir.
O nó ainda a desatar é regulatório. O marco legal dos ativos digitais existe desde 2022, mas normas específicas para a tokenização no agro ainda estão em elaboração. A CVM, o Bacen e o Ministério da Agricultura precisam preencher esse vácuo com agilidade — sem burocracia excessiva e sem a tentação de regular antes de entender.
A PERGUNTA QUE NINGUÉM QUER FAZER
Diante de tudo isso, cabe uma pergunta incômoda: se o crédito privado já supera em mais de 100% o Plano Safra, se o barter bate recordes sem banco público, se a CPR circula tokenizada em blockchain — para que serve o Plano Safra?
A resposta honesta é: ainda serve imensamente — mas para quem o crédito privado ainda não chegou. Para o Pronaf B no semiárido nordestino, para o assentado, para a agricultora familiar que não tem como emitir uma CPR ou acessar um CRA, o Estado é insubstituível. No primeiro semestre do Plano Safra 2025/2026, foram mais de 1,18 milhão de operações de crédito no Pronaf, com crescimento de 20% em relação à safra anterior. Para esses produtores, qualquer
redução do crédito público seria uma tragédia social e produtiva.
O problema é quando a narrativa pública trata o Plano Safra como solução total para toda a agricultura — pequena, média e grande. Isso cria uma ilusão de suficiência que desincentiva o produtor de médio e grande porte a buscar alternativas mais eficientes, e alimenta debates em Brasília desconectados da realidade financeira do campo.
O campo mudou. O dinheiro que planta a lavoura mudou ainda mais. Em sessenta anos, o Brasil saiu do financiamento estatal quase total para um mercado privado de R$ 1,4 trilhão. Em trinta anos, a CPR migrou do papel para o blockchain. O barter triangular virou produto de renda fixa. A vaca se tornou ativo digital.
A revolução financeira do agronegócio brasileiro não está chegando. Ela já chegou. A pergunta que fica é uma só: o produtor, o técnico, o gestor de cooperativa e o formulador de política pública estão prontos para operar nessa nova realidade? Ou vão continuar esperando pelo Plano Safra como quem espera chuva em ano seco?
O agro não para!